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NOTA do MAIS sobre o caso de racismo no grupo espaço unidade de ação: fortalecer a luta dos oprimidos é fortalecer toda classe

Todos os dias nos confrontamos com as tristes expressões do racismo, machismo e lgbtfobia. Essas manifestações ocorrem nas mais diversas esferas da sociedade, como na família, nos locais de estudo e trabalho, no transporte público, para citar apenas alguns exemplos. E é fato, que mesmo as organizações da esquerda, do movimento sindical e popular, não estão imunes e por diversas vezes reproduzem em seu meio essas ideologias. Foi o que aconteceu na última semana dentro de um grupo de WhatsApp do movimento sindical de oposição de esquerda na Bahia.

Fomos surpreendidos com uma discussão sobre uma divergência política que se transformou em um ataque racista. Num determinado momento de um debate sobre se era possível e quais limites de se estabelecer uma relação entre a reforma trabalhista e a escravidão, uma dirigente sindical se dirigiu à companheira Gleide Davis, militante do MAIS, dizendo a ela que “o problema é que você como pobre, pensa pobre”. Após ser questionada sobre o conteúdo problemático (racista e classista) de sua afirmação, a dirigente fez uma série de outras afirmações que, infelizmente, nós negros já ouvimos inúmeras vezes em nossas vidas quando confrontamos alguém que cometeu uma atitude racista. Nossa companheira foi chamada de “ louca” , foi coagida com a ameaça de ser processada e de ter sido ela a racista, o chamado “racismo reverso”, por estar acusando a dirigente sindical de ter sido racista.

Compreendemos que o racismo, assim como também o machismo e lgbtfobia, são ideologias da classe inimiga, mas que infelizmente são dominantes e estruturam nossa sociedade. Nesse sentindo, compreendemos que todas as pessoas estão suscetíveis a reproduzir a opressão em algum momento da vida. Não existe ninguém que esteja imune a isso. A diferença é a forma como as pessoas tentam desconstruir isso e fazer uma autocrítica quando alguém aponta um caso assim. Ao ser acusada ou acusado de racismo, a primeira coisa que a pessoa deve fazer é refletir sobre a situação. Não importa se foi um caso intencional ou não, a resposta nunca pode ser um ataque imediato contra quem está problematizando a atitude.

Repudiamos as respostas apresentadas pela dirigente sindical e dos demais membros que tentaram defendê-la. Não se tratou de uma briga pessoal ou desentendimento “por problemas de interpretação”, o que aconteceu precisa ser chamado pelo nome, foi um caso grave de Racismo. Um ataque a nossa companheira Gleide, é um ataque a toda nossa organização. Mas este não foi apenas um ataque a nossa organização, foi um ataque a todxs negrxs do grupo em questão. Encaramos o que aconteceu com muita seriedade e achamos que o movimento sindical e as demais entidades e organizações tem a obrigação de fazer o mesmo.

Não podemos encarar uma situação como essa com naturalidade, e muito menos vacilar e tratar o confronto com o racismo como menos importante. Temos, todos nós, a obrigação de educar a militância para não reproduzir essa ideologia nefasta. E isso não é perda de tempo pois temos “outros inimigos mais importantes para combater” e não podemos “dividir a classe”. Não concordamos com essa concepção. Pelo contrário, acreditamos que, entre aquilo que divide a classe, está sim a reprodução dessas opressões no interior dela. O que divide a classe é afastar dos espaços lutadoras e lutadores negrxs, mulheres e lgbts por que não se dá o combate consequente para casos como esse. Não achamos que é preciso que aconteçam situações assim para que se encare o combate as opressões, mas esperamos que a partir deste fato se desenvolva uma discussão consequente sobre como devemos reagir para dar combate a casos de opressão dentro do movimento.

Nós do MAIS reivindicamos que seja tomada como tarefa a construção de um debate sobre o combate que o movimento sindical deve dar ao racismo.Também julgamos importantes outras iniciativas polítcas que ajudem na reflexão a cerca dos impactos da reforma trabalhista sobre o conjunto da classe trabalhadora em geral, e sobre os negros e negras em particular. Nessa tarefa a militância negra das organizações da esquerda, à exemplo de nossa companheira Gleide, precisará ser protagonista da elaboração sobre o tema.

Compreendemos que uma retratação formal não apaga o que aconteceu, é preciso que isto venha acompanhado de uma verdadeira auto crítica. Temos, todos nós, a responsabilidade de tocar este debate no movimento sindical e dentro do grupo em questão. Se assumimos como tarefa de nossas vidas a transformação da sociedade, temos como desafio incontornável lutar também para ganhar cada companheira e companheiro para uma mudança de postura, para ser uma aliada ou aliado na luta contra o racismo e toda forma de opressão.

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