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Nenhuma mulher pode ser criminalizada pela violência que sofreu

Somos todas Gabriela! Mexeu com uma, mexeu com todas!

Somos mulheres feministas, assumimos um compromisso com a luta pela transformação radical desta sociedade. Lutamos contra o capitalismo e por uma sociedade onde não existam classes sociais, nem propriedade privada e, onde portanto, estarão colocadas as bases para que as pessoas sejam socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.

Mas esta luta se dá na sociedade capitalista, tal como ela é, assim nenhuma organização de esquerda, que não seja uma seita, está livre de se deparar com problemas de machismo. É assim com todas as opressões. Por isso ela é tão útil à classe dominante, sua força é o seu poder de dividir. Assim fazem com que os trabalhadores pensem que seu inimigo é o imigrante, por outro lado fazem com que as mulheres pensem que seus inimigos são os homens, as LGBTs pensem que seus inimigos são os heterosesuais e as pessoas cis, e os negras pensem que seus inimigos são os brancos. Se não enfrentamos os preconceitos e a opressão estaremos mais fracos como oprimidos, mais fracos como classe explorada, e como consequência disso a classe dominante estará muito mais forte.

Neste marco nós lutamos para unificar “os de baixo”, os explorados, os oprimidos. É desde esta perspectiva que nós, mulheres do MAIS, trazemos uma questão que em nossa interpretação, constitui uma ação de violência psicológica e intimidação das mulheres, e o que é ainda mais grave, é uma intimidação das mulheres vítimas de violência.

Denunciar um caso de agressão e violência machista é sempre muito difícil para as vítimas. A todo momento suas histórias são questionadas, descredibilizadas ou pior são culpabilizadas pela agressão que sofreram. Muitas conseguem romper com esse processo e o silenciamento imposto pelo machismo, mas após denunciar sofrem outro tipo de agressão: um processo judicial.

Gabriela foi mais uma dessas mulheres. No ano passado Gabriela, que é militante do MAIS, foi vítima de um caso de violência psicológica e assédio protagonizado por um dirigente de esquerda [1], militante do Levante Popular da Juventude. Como se trata de uma violência machista ocorrida entre pessoas de duas organizações diferentes tivemos a preocupação de não misturar o necessário debate sobre o machismo, com as diferenças políticas entre as duas organizações.

As divergências entre essas duas organizações envolvidas nada tem a ver com este caso em particular. Não se pode usar uma situação de machismo para atacar outra organização política. Problemas de machismo podem acontecer, e acontecem, em qualquer organização. A questão é: como a organização reage? Como combate os problemas? Pensamos que a educação coletiva tem muito poder transformador, e é evidente que todo aquele que pretende mudar o mundo deve estar disposto a mudar a si mesmo. Por isso procuramos a direção do Levante Popular da Juventude, informamos o ocorrido e houve acordo com combater conjuntamente o problema. Meses depois, fomos surpreendidos com uma ação criminal movida por ele, uma atitude absurda e em nossa visão totalmente inaceitável. O agressor entrou com uma ação criminal contra a vítima, alegando calúnia e difamação.

Nos choca e enraivece muito saber que além de tudo que ela enfrentou, está sendo vítima de mais essa perseguição. Nós colocamos incansavelmente do lado da companheira e dizemos que MACHISTAS NÃO PASSARÃO!

Quando um homem acusado de machismo pensa que o que ocorreu uma calúnia, ou que a acusação não corresponde à verdade, o caminho correto é que se forme uma comissão do movimento de mulheres, que escute as versões e apure em detalhes tudo o que ocorreu. Não esperamos nada da justiça burguesa, que como todos sabemos, condena os oprimidos todos os dias. É portanto inadmissível que um dirigente de esquerda dê início à um processo criminal contra uma mulher que o denunciou. Não aceitamos. Não aceitaremos. Mexeu com uma mexeu com todas.

Em nossa sociedade as mulheres são obrigadas a terem de recorrer à justiça dos ricos e poderosos e, muitas vezes sofrer duplamente com a violência machista, isso é muitas vezes uma questão de sobrevivência. Entretanto, um homem denunciado por agressão buscar auxílio na justiça burguesa para responder a uma denúncia feita politicamente no movimento é um completo absurdo e só contribui para enfraquecer a luta e a voz das mulheres.

Depois de atos vitoriosos nesse 8 de março em todo o mundo, onde mulheres se levantaram contra a violência machista e os ataques que retiram, em primeiro lugar, os seus direitos, esperamos que esta caso não seja mais uma esquecida estatística. Não deixaremos que isso aconteça.

Nenhuma organização de esquerda pode aceitar que os seus militantes homens movam ações criminais contra as mulheres que denunciam. Podemos e devemos encarar juntas o problema. Esperamos um posicionamento público do Levante Popular da Juventude. Exigimos que este processo seja retirado, sua continuidade é mais um ato de machismo. Neste caso, não há espaço para a neutralidade. Numa luta entre desiguais, a indiferença sempre ajuda o mais forte.

Mulheres do MAIS

9 de março de 2017.

[1] Não colocamos o nome do agressor como forma de proteção jurídica.

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